Dia do choro: homenagem ao nascimento de Pixinguinha

O dia do choro é comemorado no dia 23 de abril, data de nascimento de Pixinguinha, um dos maiores nomes do gênero e da música brasileira

No dia 23 de abril se comemora em todo o Brasil o dia do choro. É o dia do aniversário de Pixinguinha, nascido em 23 de abril de 1897. Pixinguinha, um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos, foi o músico que consolidou o choro como o primeiro gênero musical tipicamente brasileiro e um dos gêneros mais prestigiados da música popular brasileira.


Pixinguinha - Foto: Divulação / Banco do Brasil

A importância do choro na história musical do país pode ser atestada pela admiração do maestro e compositor Heitor Villa-Lobos, que compôs uma série de 16 composições dedicadas ao choro, mostrando a riqueza musical do gênero e fazendo-o presente no mundo da música erudita.

O choro

As origens do choro estão intimamente ligadas à chegada da Família Real portuguesa ao Brasil em 1808. Com eles vieram muitos músicos europeus trazendo seus instrumentos como o piano, o violão, clarinete, flauta, bandolim e o cavaquinho. Após a abolição do tráfico de escravos em 1850 foram criadas as condições para o surgimento de músicos nas camadas populares, que misturaram o lundu, uma música de origem africana baseada em percussão com gêneros europeus, criando o que viria a ser o choro.

Esses músicos populares, mais tarde chamados de chorões, eram oriundos da classe média baixa da sociedade carioca, em boa parte modestos funcionários de repartições públicas, como os da Alfandega, Correios e Telégrafos e da Estrada de Ferro Central do Brasil.

Nos primeiros anos os grupos de choro se compunham do trio de flauta (instrumento solista), violão (encarregado das linhas de baixo) e cavaquinho. A polca “Flor Amorosa”, composta por Joaquim Antônio da Silva Callado em 1867, é considerada o primeiro choro. O choro, como um gênero próprio, só viria a se consolidar na década de 1910.

Outros grandes nomes do início do choro são a maestrina Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth. Chiquinha Gonzaga surgiu como a primeira chorona, compositora e pianista do gênero. Em 1877 compôs “Atraente” e em 1897 “Gaúcho (Corta-Jaca)”, grandes composições do gênero. Ernesto Nazareth se notabilizou como um dos grandes nomes do maxixe, considerado desde os anos 20 como um subgênero do choro.

Nos primeiros anos do século XX outros instrumentos começaram a ser incorporado ao choro como o bandolim, clarineta, saxofone e trombone. Com isso o choro adquiriu elementos de improvisação, o que colaborou para o surgimento de virtuoses como João Pernambuco, Quincas Laranjeiras, Sátiro Bilhar (violonistas), o cavaquinhista Chico Borges e Viriato Rangel (flautista).

Alfredo, o Pixinguinha

Alfredo da Rocha Vianna Filho, conhecido como Pixinguinha, nasceu no bairro da Piedade no Rio de Janeiro em 23 de abril de 1897. Era filho de um funcionário dos correios, Alfredo da Rocha Vianna, que era também flautista amador e que possuía uma grande coleção de partituras de choros antigos, frequentemente promovendo em sua casa reuniões de chorões.

Adquiriu seu apelido de Pixinguinha ainda na infância. Sua prima Eurídice o chamou de Pizindim (menino bom em um dialeto africano). Ele tinha uma enorme família com muitos músicos como seus irmãos Otávio, que cantava e tocava violão e banjo, Henrique e Léo que tocavam violão e cavaquinho, Edith que era pianista e Hermengarda, que só não se tornou cantora profissional pela proibição expressa do pai.

Em 1908 Pixinguinha compôs sua primeira música, o choro “Lata de Leite”. A musicalidade do garoto impressionou o pai que resolver importar da Itália uma flauta de prata da marca “Balacina Biloro”, na época, a mais famosa, feita por encomenda. Com o rápido desenvolvimento no instrumento foi tocar na orquestra do rancho carnavalesco Filhas das Jardineiras. Foi o início da carreira profissional de Pixinguinha, com apenas 14 anos de idade.

1914 é o ano da primeira gravação de uma música de sua autoria: o tango “Dominante”, que aparece na partitura assinado por “Alfredo da Rocha Vianna (Pizidin)”.

Oito Batutas

Em 1918 Pixinguinha e o amigo Donga foram convocados pelo proprietário do cinema Palais, na Avenida Rio Branco, para formar uma pequena orquestra para entreter as pessoas na sala de espera. Era a reabertura do cinema após a crise causada pelo surto da gripe espanhola de 1917.

Assim foi criado o grupo Oito Batutas, que tinha Pixinguinha (flauta), José Alves de Lima, o Zezé (bandolim e ganzá), Jacob Palmieri (bandola e reco-reco), Nelson Alves (cavaquinho), Donga e Raul Palmieri (violão), Luís de Oliveira (bandolim e reco-reco) e China (irmão de Pixinguinha, voz e violão). O grupo estreou em 1919 tocando maxixes, lundus, tangos, cateretês e batuques. Foi um sucesso e também algo polemico para críticos conservadores que consideraram um escândalo um “grupo que toca música popular, usa trajes nordestinos e ainda por cima tem quatro negros em sua formação: Pixinguinha, Donga, China e Nelson Alves”.

O grupo excursiona pelo Brasil, patrocinado pelo milionário Arnaldo Guinle. Em 1922 excursionam pela França, onde Pixinguinha compra um saxofone, presente de Guinle.

Carinhoso

Em 1928 saem dois discos 78 rotações com músicas de Pixinguinha. O primeiro traz em um lado o choro “Lamentos”, interpretado pela Orquestra Típica Pixinguinha-Donga e no outro o choro “Amigo do Povo” de Donga. A revista Phono-Arte criticou o disco ressaltando a influência das melodias e ritmos norte-americanos, ou seja, dos elementos de jazz que transpareciam nessas composições.

O outro disco trouxe a gravação da Orquestra Típica Pixinguinha-Donga para um choro instrumental em duas partes – uma a menos que as tradicionais três partes do choro – chamado Carinhoso. Esta música está no lado B. O lado A trazia o maxixe “Não Diga Não”, de autoria de Peri. Mais uma vez a crítica reprova Pixinguinha pelas influências de jazz. “Carinhoso” não foi um sucesso então e nem mesmo com as regravações seguintes: pela Orquestra Victor Brasileira (1929) e pelo bandolinista Luperce Miranda em 1934.

Os anos na RCA Victor

Em 1929 Pixinguinha consegue um trabalho na gravadora RCA Victor Talking Machine Company of Brazil. Lá ele tem as atribuições de escrever arranjos e orquestrações e também de reger a orquestra da gravadora. O início da atuação de Pixinguinha na RCA Victor trouxe, de certa maneira, a solução para um problema que a música popular brasileira, em especial o samba, enfrentava dentro das gravadoras. O samba já tinha grande popularidade, mas nas gravações não soava como samba. Pixinguinha foi fundamental para o samba soar como samba, como definiu o jornalista Sérgio Cabral: “Pixinguinha abrasileirou as orquestrações de forma tão nítida e radical, que se pode dizer, sem qualquer medo de errar, que foi ele o grande pioneiro da orquestração para a música popular brasileira. A canção carnavalesca deve a ele uma boa parcela do seu êxito, ao escrever arranjos com destacada participação da orquestra, criando introduções que ficaram famosas (como a de “O Teu Cabelo Não Nega”, por exemplo) e encontrando soluções inventivas paras as músicas mais simples, ao utilizar muito bem a percussão e ao variar na base das modulações”.

Além do trabalho de orquestrador e arranjador Pixinguinha ainda arranja tempo para compor. Alguns dos destaques desta época são o samba “Os Home Implica Comigo”, em parceria com Carmem Miranda e o choro “Segura Ele”.

Orlando Silva

Em 1937 o cantor das multidões, Orlando Silva, gravou uma versão de “Carinhoso” com letra de Braguinha. Esta gravação teve arranjo de Radamés Gnatalli e contou com Pixinguinha na flauta e Garoto no cavaquinho. Só então é que a música se tornou uma das mais gravadas de nossa música popular.

Meu coração, não sei por que
Bate feliz quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo
Mas mesmo assim
Foges de mim…

Velha Guarda

Pixinguinha formou em 1954 o grupo Velha Guarda com João de Barro e Donga. Com esse grupo lançou o primeiro LP de sua carreira: “A Velha Guarda”, lançado em 1955. Isso após o lançamento de quase uma centena de discos 78 rotações.

Pixinguinha morreu em 17 de fevereiro de 1973, dois sábados antes do carnaval. Naquele dia à tarde vestiu seu terno marrom e saiu, com seu filho Alfredinho, em direção da Igreja da Nossa Senhora da Paz em Ipanema para batizar o filho de seu amigo Euclides Souza Lima. Como presente para o bebê levou uma partitura manuscrita de Carinhoso. Porém, no momento em que se prepara para assinar seu nome no livro da igreja Pixinguinha cai em pleno altar, fulminado por um infarto.


Fonte: Diário da Causa Operária

Comentários

Posts mais visitados

Cacau Novaes entrevista Nego Jhá: 'Vem pro cabaré'

O perigo das Fake News para a sociedade e o impacto às pessoas e instituições

Os morcegos estão comendo os mamãos maduros, de Gramiro de Matos

Sérgio Mattos: Bernardo Rabello, nova aposta da moda nacional

Manifesto dos Escritores, Artistas, Cientistas, Jornalistas, Professores e Pensadores Baianos pela Democracia