Pular para o conteúdo principal

CEC emite Moção de Repúdio contra declarações de Sérgio Camargo

De autoria da Presidente Pan Batista, a Moção de Repúdio destaca a importância de se combater as declarações  totalmente desrespeitosas que culminam nos discursos de ódio e de origem racista. O Conselho ressalta que Pan Batista é a primeira mulher negra de origem quilombola, da Comunidade Santiago do Iguape-Cachoeira BA, eleita em 2019, como presidente do Conselho Estadual de Cultura da Bahia e repudia de forma veemente as declarações incompatíveis ao cargo do Senhor Sérgio Camargo. 




Moção de Repúdio
Em relação as declarações do atual presidente
da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo
 
O Conselho Estadual de Cultura da Bahia registra moção de repúdio em relação as declarações de Sérgio Camargo, nomeado presidente da Fundação Cultural Palmares.
 
Instituída pela Lei Federal nº 7.668, de 22 de agosto de 1988, A Fundação Cultural Palmares é um dos primeiros órgãos de caráter executivo e federal a tomar providências em relação ao movimento negro, promovendo ações direcionadas na preservação histórica, nos estudos étnicos e raciais, na estruturação política da promoção da igualdade racial, no combate ao racismo e na busca da proteção de quilombos e comunidades tradicionais de matriz afro, vítimas de constantes violações de Direitos Humanos. Neste mesmo ano de 1988, completava-se os 100 anos da abolição da escravatura, também neste mesmo ano foi aprovada pela Assembleia Nacional, a Constituição da República Federativa do Brasil, documento máximo, fundamental e supremo do Brasil.
 
A Fundação Palmares traz em seu nome o peso da representação do Quilombo dos Palmares, região da atual Serra da Barriga no município União dos Palmares, estado de Alagoas. Local de resistência, sob a liderança de Gamba Zumba e se tornou o solo principal das batalhas pelas vidas dos povos quilombolas, pela força braçal e ao mesmo tempo que ancestral do nosso herói Zumbi dos Palmares que ao lado de sua companheira Dandara dos Palmares reafirmou que quilombo é sinônimo de gente guerreira, de gente que respeita suas origens, e faz de qualquer outro quilombo deste país, locais de resistência nas lutas que desde o passado até os dias atuais enfrentamos. Portanto a Fundação Palmares é o que há de mais representativo para nossa população negra e principalmente pela preservação histórica de nossos antepassados.

"A estimativa da população quilombola no Brasil, segundo dados oficiais, era de 214 mil famílias em 2012, perfazendo cerca de 1,17 milhão de pessoas" - Dados divulgados de acordo com o último balanço apresentado pela Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial [Seppir], 2012, que de forma infeliz e desastrosa quase foi extinta pelo atual Presidente da  República.

A representação desses dados refletem como as Comunidades Quilombolas precisam cada vez mais participar das políticas voltadas pela manutenção e preservação identitária, de literalmente cobrar mais respeito pelas nossas origens e sobretudo ter mais acesso na comunicação, direitos básicos de educação e saúde, interação e não viver de forma isolada da sociedade civil e da política em geral, é fazer compreender que quilombola também vota, elege os seus parlamentares e dessa forma possamos participar dos diálogos culturais e hoje alcançar posições, cargos, lideranças que jamais imaginaríamos almejar mediante tantas barreiras e mazelas oriundas de um período sofrido, martírio e violador do maior crime que a humanidade cometeu, a escravidão.

O senhor Sérgio Camargo antes mesmo de assumir a presidência da Fundação Palmares, sempre disseminou discursos incompatíveis ao cargo que hoje ocupa, ao assumir continuou vociferando declarações de cunho ofensivo, violador e de forma irresponsável decidiu se tornar declaradamente inimigo do movimento negro do Brasil. São falas pessoais e ao mesmo tempo coletivas que dialogam com os costumeiros discursos de grupos racistas, são frases agressivas e contextos incabíveis, dos quais muito do que foi dito nós, nos recusamos em reproduzir nesta moção, diante a vergonha e por utilizar termos vexatórios e repugnantes, além do fator violador, não nos sentimos confortáveis em reproduzir suas falas.
 
As declarações de Sérgio Camargo são inflamadas e geram “combustíveis’’ para propagar discursos racistas já existentes, o que alimenta de forma intragável em alguns termos ou em sua totalidade discursos que afetam as diretrizes da educação básica, violam os Estudos Sociais, a História, a Religiosidade, os Direitos Humanos e o combate ao preconceito racial. As suas falas ferem os registros históricos e culturais, dos livros didáticos, e tentam de alguma forma anular os princípios básicos de preservação, patrimonialização, tombamentos e de forma inconstitucional desrespeita o direito de toda uma sociedade que sempre, através dos estudos puderam conhecer a verdadeira história dos heróis e heroínas da luta e resistência negra, tanto do passado como nos dias atuais.
 
Por esse motivo, como mulher, mãe, negra, de axé, quilombola da Comunidade de Santiago do Iguape, Cachoeira-BA (Território Recôncavo Baiano),  atual presidente deste Conselho, assim como meus pares membros desta Casa, reforçamos que o Conselho Estadual de Cultura e seus membros conselheiros e conselheiras em cumprimento do nosso papel de atuar com políticas culturais e de mantermos a preservação da nossa história, em comunhão com os alicerces e pilares primordiais da nossa cultura, reforça a necessidade de repudiar tanto as declarações como por entender a incompatibilidade do Sérgio Camargo no cargo atual e por compreender que este como presidente não está tecnicamente preparado para continuar exercendo a função.
 
Para além desta moção, conclamamos que toda a sociedade negra e cultural, povos de terreiro e religiões de matriz africana e afro brasileira, comunidades quilombolas e tradicionais, artistas, fazedores de cultura, entidades do movimento negro, secretarias e diretorias de cultura dos estados e municípios, conselhos estaduais e municipais de cultura, e sociedade civil em geral, possamos unificar nosso repúdio e solicitar aos órgãos de justiça e ao Presidente da República que ocorra a exoneração de Sérgio Camargo, assim como exigimos que este governo possa por meio de nota propor retratação pública pelas desprezíveis declarações que violam a totalidade da nossa história.  O senhor Sérgio Camargo é totalmente incompatível com a Fundação Cultural Palmares. Respeite nossa História, respeite nossa Cultura! Salve Palmares, salve os Quilombos desta terra.
 
Atenciosamente,
Pan Batista - Presidente do CECBa.

       

Ad’ Referendum

15 de julho de 2020

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sérgio Mattos abre um panorama dos modelos brasileiros nos últimos 30 anos

Há 31 anos atrás comecei minha carreira.  Eu era gerente da Yes Brazil, loja mais badalada nos anos 1980. Foi lá que comecei a ter mais contato com o mundo da moda. Nesta época, os modelos que estavam na crista da onda eram Jens Peter, Sérgio Mello, entre outros.  Sérgio Mattos - Foto: Marcio Farias Em 1986, o fotógrafo norte-americano Bruce Weber esteve no Brasil para fazer o livro “Rio de Janeiro”, sobre a Cidade Maravilhosa. Com isso, o mundo abriu os olhos curiosos sobre a moda e os modelos brasileiros. Foi a partir daí que o Rio de Janeiro entrou definitivamente no roteiro fashion mundial e muita gente boa fez sucesso! Afinal, não foram só as mulheres que aconteceram, os homens brasileiros sempre venderam bem e são os queridinhos do mercado internacional! Jens Peter para Giorgio Armani Perfumes O mercado de modelos estava começando a bombar no Brasil e a Elite Model, agência internacional do icônico John Casablancas (1942 – 2013), começou a fazer um concurs...

Festival de Inverno Bahia se consolida como um dos maiores eventos do interior do Nordeste

O Festival de Inverno Bahia, mais uma vez, atraiu um grande público, se consolidando como um dos maiores eventos do interior do Nordeste brasileiro. Durante três dias, diversos artistas se apresentaram no palco principal, no palco alternativo e em outros locais do Parque Teopompo de Almeida, em Vitória da Conquista, no sudoeste da Bahia. Festival de Inverno Bahia - Foto: Cacau Novaes A abertura da 18ª edição do evento aconteceu na noite de sexta-feira (23) com Nando Reis e a dupla AnaVitória, que foram responsáveis por estrear o palco principal do Festival de Inverno 2024. O público se encantou com sucessos como "All Star", "Ai, Amor", "Fica", "Trevo", "Por Onde Andei", Pra Você Guardei o Amor", que fizeram parte da setlist da apresentação. Nando Reis e Ana Vitória - Foto: Divulgação/FIB24 Logo em seguida, o grupo Só Pra Contrariar se apresentou no evento com um show inédito para o interior do estado. A banda emocionou os fãs com ...

Festival de Morro de São Paulo suspende programação deste sábado (17)

Devido às fortes chuvas que atingem Morro de São Paulo na noite deste sábado (17), o Festival de Morro de São Paulo anunciou a suspensão da programação do dia, visando garantir a segurança do público. Com isso, as apresentações de Luiz Caldas e Filhos de Jorge foram canceladas. Os dias anteriores foram marcados pelo público lotando a Segunda Praia para os shows de Dayane Felix, Afrocidade, Cheiro de Amor, Batifum, Negra Cor e Jau. Hoje, o cantor Degê, fez o show de abertura da noite, antes da suspensão.

Cacau Novaes recebe os títulos de Doutor Honoris Causa e Embaixador da Cultura

José Carlos Assunção Novaes (Cacau Novaes) recebeu, na última edição do Nosso Sarau, os títulos de Doutor Honoris Causa e Embaixador da Cultura Brasileira, concedidos pela Universidade Ibero-Americana. A cerimônia de entrega aconteceu no dia 19 de junho no KreatvLab do Goethe-Institut Salvador, através do presidente da Fundação Luiz Ademir de Cultura, Luiz Ademir Souza. Também foram agraciados com o título de Doutor Honoris Causa, no mesmo dia e evento, a poeta Ametista Nunes e o escritor João Fernando Gouveia. José Carlos Assunção Novaes (Cacau Novaes) é poeta, escritor, professor, Mestre em Letras e Doutor em Língua e Cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Autor da novela "Marádida", dos livros de poesia "Os poetas estão vivos", "As Sandálias", Você não sabe do que é capaz", "Eu só queria ver o pôr do sol" e "Fonte de Beber Água", do livro infantil "Xande e o Sapo Romualdo", além da pesquisa linguistica ...

Pandemia x Pandemônio

Interessante observar como os humanos se comportam nas crises, como agora na COVID-19. Em razão das Mídias Sociais, ficou ainda mais fácil observar o fenômeno da busca de explicações para o que atinge a todos, sem exceções. Cada pessoa tem suas próprias convicções e, com liberdade, defende seus pontos de vista com maior ou menor empenho. Mas, exageros de alguns, oportunismos de outros à parte, a pandemia é real. Quem não tomar todos os cuidados estará em risco de contrair o vírus e até morrer. Ricardo Viveiros - Foto: Divulgação Já, por outro lado, o pandemônio causado pela pandemia é um fenômeno comportamental, gerado por boa parcela da sociedade. Foi o inglês John Milton que, em 1667, cunhou o neologismo em seu poema épico "Paraíso Perdido", escrito em período de muita agitação política e religiosa do século XVII, assim como estamos vivendo agora. Em 2012, foi lançado no Brasil o romance antiutópico "Pandemônio", da escritora norte-americana Lauren Oliver, que tam...